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Dr. Mateus Dornelles Severo
CREMERS 30.576
Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia/UFGRS

Uma pergunta sempre gerava debate quando eu ainda estava na escola: “Quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”
Segundo a teoria evolucionista, o ovo chegou primeiro. E as galinhas são primas bem distantes dos dinossauros (!). Hoje a pergunta que gera polêmica é outra: “Comer um montão de ovos é bom para quem convive com o diabetes?” Vejamos o que os estudos nos dizem...
Os ovos de galinha são ricos em colesterol, isto é fato. No entanto, também são ricos em uma série de nutrientes interessantes. Além de serem uma importante fonte de proteína, os ovos oferecem compostos carotenoides, arginina e folato, que, teoricamente, poderiam ajudar a proteger nosso sistema cardiovascular. Sem falar nas versões ricas em ômega 3. Contudo, como sempre digo, a ciência cria hipóteses que precisam ser testadas. Só assim, sabemos se uma intervenção funciona.
Desde metade do século 20, os ovos são matéria de estudo de médicos e nutricionistas. Um dos maiores estudos populacionais já realizados, o estudo Framingham, avaliou o efeito do consumo de ovos nos seus participantes dentro de um período de 24 anos. Neste estudo, o consumo médio de 6 ovos por semana para homens e 4 ovos por semana para mulheres não aumentou o risco de problemas cardíacos. Contudo, as pessoas que consumiam muitos ovos apresentaram uma chance um pouco maior de desenvolver diabetes mellitus tipo 2.
Outros dois grandes estudos, o HPFS e o NHS, que juntos totalizaram quase 120 mil pessoas, conseguiram avaliar o efeito do consumo de ovos especificamente em pessoas com diagnóstico de diabetes. Segundo dados destes estudos, pacientes diabéticos que consumiam mais de 1 ovo por dia apresentaram um risco maior de sofrer doenças cardíacas e vasculares. Posteriormente outro estudo, o HPS, mostrou um risco maior de infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e morte para os pacientes diabéticos que consumiam mais de 7 ovos por semana.
Há diversas críticas a estes estudos, principalmente por terem sido feitos na população americana, que não tem uma dieta muito saudável. Além disso, existem estudos em outros países mostrando dados diferentes. No entanto, as análises de todo o conjunto de dados sobre o assunto “consumo de ovos em pacientes diabéticos”, através de revisões sistemáticas, mostram que o consumo de apenas 1 ovo por dia já pode aumentar o risco de diabetes mellitus tipo 2 em 42 por cento. E, em pessoas já diabéticas, 7 ou mais ovos por semana parecem aumentar o risco de doenças cardiovasculares.
Isto quer dizer que ovos não devem ser consumidos por pessoas diabéticas ou em alto risco para a doença? Não. Nenhum alimento isolado causa ou trata o diabetes mellitus. Padrões alimentares e comportamentais associados à carga genética estão por trás da doença. Mas, com certeza, o consumo exagerado de ovos pregado em algumas dietas vendidas indiscriminadamente através da internet não encontra respaldo científico e pode ser potencialmente prejudicial à saúde. Até que a ciência tenha respostas mais definitivas sobre o assunto, até meia dúzia de ovos por semana, dentro de uma dieta equilibrada, não parece fazer mal à saúde de quem convive com diabetes. E sempre que houver dúvidas, profissionais éticos e atualizados devem ser consultados para que as individualidades de cada paciente sejam respeitadas.

Postado por Carlos PAIM